|
Operação Egito Ricardo Muniz,* do Cairo, no Egito
Nesta e na próxima edição, ECLÉSIA publica com exclusividade os relatos do missionário brasileiro Ricardo Muniz, integrante da Missão Portas Abertas, que esteve no Oriente Médio entre os meses de maio e junho para conhecer os crentes locais e preparar roteiros para um tipo de turista diferente do convencional: gente que está disposta a ir a nações fechadas para o Evangelho a fim de levar apoio e trocar informações com irmãos na fé que sofrem perseguição e ameaças devido a sua fé em Cristo. O programa, que será lançado no Brasil no ano que vem, já vem sendo executado por Portas Abertas na Europa. Nesta reportagem, Ricardo fala do que viu no Egito, onde ficou uma semana conversando com pastores e crentes e visitando igrejas, tudo de maneira reservada, para não ameaçar a segurança daqueles irmãos. Ele constatou que, apesar da alegada democracia praticada pelo governo, o país ainda é um território arriscado para quem crê e pratica o Evangelho. O Egito é o maior cemitério do mundo.” Esta afirmação, feita pelo guia turístico – um cristão –, que nos recepcionou no país dos faraós, dá bem a idéia de um sentimento comum entre os egípcios: o de que sua terra só desperta o interesse internacional devido às magníficas relíquias de uma das mais avançadas civilizações da Antigüidade. Um tesouro arqueológico composto por tumbas, templos e pirâmides que resistem aos séculos. O Egito só é lembrado no contexto mundial em função do seu glorioso passado. A maioria dos ocidentais desconhece a realidade de um país que deve entrar no século 21 seriamente comprometido pela miséria e com seu futuro ameaçado, entre outras coisas, por estruturas sociais que remontam à Idade Média. E a situação dos cristãos locais é ainda mais ignorada, mesmo sabendo-se que o país ocupa a 14ª posição na lista da intolerância contra o cristianismo. Eu e meu colega Carlos Alfredo, da Missão Portas Abertas, fomos para o Egito na companhia de um grupo de ingleses, numa viagem preparatória de futuras excursões que serão realizadas anualmente. A idéia é levar até lá líderes evangélicos e pessoas interessadas em conhecer um pouco da comunidade cristã local, que vive e exerce sua fé de maneira precária, enfrentando ameaças e até mesmo risco de vida. Gente que não esteja interessada somente em visitar sítios arqueológicos e ruínas famosas, mas principalmente em ser porta-voz de comunhão e solidariedade em nome de Jesus. Além de atuar como batedores das próximas visitas, entrevistamos irmãos e trouxemos seus testemunhos para que a Igreja Brasileira, melhor informada, possa interceder por aquela parte do corpo de Cristo e se anime a enviar representantes para encorajar a Igreja egípcia. O Egito, situado no norte da África, tem 67 milhões de habitantes, dos quais 8 milhões são de cristãos, a maioria da milenar Igreja Ortodoxa Copta, de um ramo oriental do cristianismo. Há no país, segundo os dados que colhemos, 250 mil protestantes e 200 mil católicos. Embora o grosso da população seja de muçulmanos, grande parte dos seguidores do Islã no país é composta por fiéis apenas nominais. O atual presidente, Hosni Mubarak, no poder desde fins de 1981, é visto pelos cristãos como alguém que, pelo menos, resiste às pressões dos muçulmanos radicais e, de certa forma, ainda garante a sobrevivência da minoria cristã. Batismo arriscado – Em pleno centro do Cairo, uma das maiores metrópoles do mundo árabe, com mais de 8 milhões de habitantes, não se vê muito daquele Egito anunciado nos folhetos turísticos, cheio de palmeiras, camelos e beduínos. É uma megacidade cinzenta e esfumaçada, com prédios modernos e trânsito intenso. No miolo da capital fica o belo templo evangélico El Doubara, erguido nos anos 40 com milagrosa autorização do próprio rei – o Egito só se tornou uma república em 1952. É uma igreja de linha presbiteriana, e seu pastor, Menis Noor, sempre sorridente e de fala mansa, nos recebeu em sua sala de reuniões e passou a contar o significado de ser cristão no Egito. A cerimônia do batismo, por exemplo – rito tão fundamental da fé evangélica –, é uma ação de risco no Egito. É terminantemente proibido batizar um maometano em nome de Cristo. “Se na mesquita aqui do lado disserem que estamos batizando muçulmanos, toda a congregação virá incendiar a igreja e os bombeiros não farão nada”, comenta o pastor. Outro drama para quem resolve entregar a vida a Cristo no Egito é a estrutura social e familiar, ainda muito arcaica. “Aqui em nosso país, quanto mais compacta e rígida é a família, mais duras são as conseqüências da conversão ao cristianismo. Nesses casos, quem se une à igreja perde automaticamente os laços com os parentes, e ainda deve se contentar por nada pior acontecer.” Para não beneficiar o cristão, até as leis civis são aplicadas de forma diferente. Por exemplo: em caso de morte dos pais, normalmente os filhos ficariam com os avós. Mas se os avós forem cristãos, o juiz ignora a lei e transfere a guarda para os parentes mais próximos – que sejam comprovadamente bons muçulmanos, claro. A fronteira social entre muçulmanos e cristãos é nítida até pelo nome das pessoas. Há os sobrenomes islâmicos e os cristãos. Outros obstáculos são mais sutis. Ao contrário do Ocidente, domingo no Egito é dia de trabalho normal, já que o dia santo do islamismo é a sexta-feira. Funcionários públicos cristãos têm uma colher de chá e recebem permissão para entrar no serviço dominical às 10h. Por isso, os cultos não podem durar mais do que 50 minutos. Já os empregados da iniciativa privada não contam com esta boa vontade e passam o domingo no batente, sem poder ir à igreja. Para compensar tanta pressão, muitos pastores estimulam todos os convertidos a congregar na igreja. É uma forma de aqueles que são rejeitados pelas famílias encontrarem refúgio e amizade. E as igrejas acolhem também crentes do Sudão, o conturbado vizinho do sul, país imerso em uma guerra civil sangrenta que já dura décadas, e onde a situação dos cristãos é ainda pior. Em um dos salões da El Doubara, por exemplo, mais de 80 refugiados sudaneses encontram-se regularmente. Mas mesmo nessas condições adversas, a Igreja floresce. A evangelização de muçulmanos, ministério dos mais arriscados que existem, assumiu proporção de movimento organizado no Egito a partir dos anos 80. Só na cidade de Alexandria, há 60 jovens crentes alcançando muçulmanos. Recentemente, entraram em contato com o pastor Menis, pedindo treinamento para o trabalho. “Disse para eles que não tinha passos para ensinar. É tudo muito novo, estamos todos aprendendo, não há um manual pronto para nos orientar neste desafio.” Alto preço – Nossa aventura continuou numa noite, em um lugar discreto, com todas as cautelas, quando nos encontramos com dois crentes egípcios. O caso deles é especial: são ex-muçulmanos. Nada pode ser mais ofensivo num país islâmico. Karim e Ahmed (nomes fictícios) deixam claro logo no início da conversa que estarão resumindo, e muito, suas histórias. Entende-se: as chances de ambos permanecer vivos estão diretamente ligadas à discrição. Em 1984, quando tinha 14 anos de idade, um dos melhores amigos de Karim no colégio converteu-se ao cristianismo. “Fiquei chocado porque nunca havia ouvido falar sobre conversão”, lembra o rapaz. “Eu tinha medo de Deus. Via-o como um Deus forte, distante, que não se importava conosco.” Certa vez, Karim perguntou para seu amigo o que ele acreditava que aconteceria quando morresse. E ele respondeu que, ao morrer, iria para seu Pai. “Meu pai” não é expressão que se use no islamismo, e isso assombrou ainda mais o moço. Depois de dois anos, Karim procurou o ancião da mesquita. “Mas ele não tinha resposta para minhas dúvidas sobre Jesus. Simplesmente mandou que meu pai me afastasse de amigos que estavam corrompendo minha fé.” Em 1990, Karim leu a Bíblia. Seu relato é emocionante: “Vi uma história cheia de gente comum. Pedro, por exemplo, não era nenhum herói, sem defeitos. Além disso, aquele meu amigo me dizia que Deus ouve nossas orações.” Dez meses depois, Karim conta que começou a duvidar de tudo. E, neste ponto, teve uma visão de Jesus, que lhe dizia: “Venho para todos, e agora vim para você.” Quando sua conversão tornou-se conhecida, Karim pagou caro. Ficou preso um mês. Posto em liberdade, mudou-se para o Cairo, onde seria menos visado. “A polícia pediu que meu pai informasse meu telefone e endereço na capital. Desde então, vivo aqui, sabendo que sou procurado.” A história de Ahmed também tem tons dramáticos. Seu pai perseguia os cristãos e chegou a incendiar uma igreja. Tempos depois, Ahmed decidiu ingressar num grupo radical islâmico, cujo ideário resumia-se na firme convicção de que ninguém no Egito era tão bom muçulmano quanto eles. “Fui missionário no Líbano, no Iraque, na Jordânia e na Síria. Meu objetivo específico era converter cristãos ao Islã. Meu trabalho não exigia esforço. Os cristãos que encontrava não sabiam nada da Bíblia, e se convertiam com facilidade.” Ahmed comprometeu-se cada vez mais com o extremismo religioso. Participou de um atentado contra um professor muçulmano da Universidade Al Azhar, considerado moderado. “Fomos condenados a dois anos de prisão pelo assassinato.” Com uma ficha tão suja, resolveu fugir do país e passou 12 anos exilado no Iêmen. Retornou em 1990. Nessa época, seu grupo tomou conhecimento pelos jornais que missionários cristãos estavam indo trabalhar no Egito. Como as ações violentas poderiam causar mais prisões e exílios, decidiram escrever um livro provando que o cristianismo era uma fraude. “Deram-me uma Bíblia e disseram que tinha que estudá-la para refutar a religião cristã. Eu não queria nem mesmo o livro, pois o considerava imundo. Só que depois de meses de estudo, não consegui achar nada que comprovasse que a Bíblia não é de Deus. Também não encontrei sequer uma referência ao profeta Maomé.” O rapaz emociona-se ao lembrar aquele momento decisivo de sua vida. “Ao fim de minha empreitada, entrei em crise e chorei muito. Afinal, deixei família, fui preso, fugi do meu país, tudo isso pelo Islã.” Assim como o amigo Karim, Ahmed conta que teve uma experiência sobrenatural. “Vi Jesus num sonho, e ele sacudia meus ombros e me dizia ser aquele que eu procurava.” Chegou a ser internado como louco e recebeu choques elétricos. Mas a fé em Cristo tinha chegado para ficar. Ahmed até encontrou uma maneira segura de fazer suas orações. “Eu orava o Pai Nosso cinco vezes por dia, nas horas em que os muçulmanos são convocados para as preces islâmicas”, lembra, divertido. Mas seus ex-companheiros de terrorismo não o esqueceram com facilidade. Em 1993, Ahmed foi seqüestrado pelo mesmo grupo que integrou. Ahmed foi torturado e teve que entregar todos os seus estudos bíblicos. Ficou semanas no cativeiro. “Eles só pararam de me bater porque enjoaram. Acabaram me deixando ir embora.” Pouco tempo depois, Ahmed ficou sabendo que todos morreram num acidente de carro. E depois de 20 anos sem falar com seus parentes – “Eu não os considerava bons muçulmanos”, explica –, ele voltou a procurá-los. “Quando me converti, apertei pela primeira vez as mãos de meus familiares. Eles ficaram estarrecidos, e então pude testemunhar do Evangelho. Muitos de minha família estão se convertendo ao Senhor”, conta, satisfeito. “Três deuses” – Além dos contatos com nossos irmãos, visitamos um projeto extraordinário chamado Sociedade Bom Samaritano, localizado na Cidade do Lixo, em Moqattam, periferia do Cairo. Num enorme bairro habitado quase que exclusivamente por catadores de lixo, evangélicos apoiados financeiramente pela Missão Portas Abertas estabeleceram uma escola de tecelagem para jovens carentes. Além disso, estão finalizando a construção de um grande edifício que abrigará orfanato, escola e ponto de encontro para os cristãos. Atravessando o emaranhado de casas, sacos de lixo, moscas, ratos e porcos – que só cristãos podem criar, pois muçulmanos os consideram animais imundos, assim como os judeus –, alcançamos a entrada da Igreja da Caverna, um templo ortodoxo copta encravado num rochedo no qual cabem, para nosso espanto, mais de 20 mil pessoas. Ouvimos o louvor embalado por ritmos árabes e testemunhamos uma verdadeira multidão chegando para o culto, em plena quarta-feira. Nossa última conversa no Egito foi com nosso colega de Portas Abertas no Egito, que vive na clandestinidade. Seu tom é de desabafo. “Durante anos nos sentimos deixados para trás, isolados e sob pressão. Os muçulmanos acreditam que somos de uma religião ocidental: bebemos álcool, comemos porco, temos três deuses, nossa Bíblia contém erros, nossa religião é corrompida”, enumera. Ele insiste na enorme importância da presença de irmãos e irmãs de outros países – uma necessidade que muitas vezes nós, os visitantes, não conseguimos entender. Aquele companheiro nos contou das dificuldades do dia-a-dia. Uma delas é encontrar uma escola onde o ensino islâmico não seja compulsório para matricular os filhos. Segundo ele, a tendência mais forte é que os crentes egípcios fujam para outros países. O que, segundo aquele irmão, é péssimo para o trabalho missionário lá. “Nossa luta é para que todos finquem o pé onde estão e testemunhem o Evangelho.” Evidentemente, conhecendo os riscos a que se submetem aqueles que insistem em ficar e trabalhar para o Reino de Deus. As últimas palavras daquele irmão, antes de nos despedirmos, num tom sombrio, resumem o que é a vida dos nossos irmãos egípcios. “Aqui no Egito, aprendemos em aulas práticas que o sofrimento está incluído no pacote da vida cristã. Até um simples e-mail com texto inadequado pode nos lançar na cadeia.”
|